sexta-feira, janeiro 20, 2006

Que falta me faz IV


Estávamos de férias e fomos visitar nosso pai em Porto Alegre. Na época morávamos em Tubarão. A viajem era fatigante, demorava horas e horas para chegarmos ao destino final. Ônibus parando em tudo quanto era cidadezinha, gente subindo e descendo às dezenas. Todos adultos, as poucas crianças que tinha no ônibus viajavam acompanhadas por adultos, exceto nós. Sempre viajamos sozinhos, tendo como compania somente o outro (pouco tempo depois já viajávamos completamente sozinhos. Ora eu, ora ele, como se fôssemos adultos também). Logo ao chegarmos à rodoviária, exaustos diga-se de passagem, o coração disparava e pela janela já se podia ver nosso pai nos esperando. Sorriso largo no rosto, cabelo grande, barba. Era um sujeito inconfundível, que mesmo depois de passar certo tempo sem o ver, não havia como se enganar. Descemos correndo e pulamos em cima dele, abraço apertado, longo e demorado daqueles que nos faz faltar o ar e que somente a saudade e o amor são capazes de nos proporcionar. Com a felicidade estampada nos rostos seguimos para casa do meu pai. Já não me recordo onde era. Desta viagem, além disto lembro-me de pouca coisa. Visitamos parentes, jantamos fora, fomos à shoppings...
Era um domingo de sol na fria capital gaúcha e fomos à Redenção – o maior e mais belo parque da cidade. Comemos algodão-doce, jogamos bola e conhecemos outras crianças que se juntaram à nós nas brincadeiras. Alugamos bicicletas e pedalamos por todo o parque. Dei um tremendo azar, a única bicicleta que havia “sem rodinhas” não se equiparava nem de longe com a que meu irmão havia escolhido. Eu tinha verdadeiro fascínio pela coragem e destreza do meu irmão ao dirigir uma bicicleta “sem rodinhas” em alta velocidade. Ele sempre tinha de diminuir o ritmo para que eu pudesse alcançá-lo. Hoje sei que muitas vezes ele me deixava ultrapassá-lo e depois fazia de conta que havia perdido a corrida para mim, somente para me alegrar. Mas ele jamais confessou isto.
Não sei bem se todas estas memórias aconteceram exatamente assim. Mas são assim que elas se encontram em meio às minhas lembranças. Talvez minha mente ao “ver” as fotos deste dia, tenha apenas criado toda esta história para que as fotos fizessem sentido. Talvez alguns resquicíos de memória sejam verdadeiros e minha mente apenas tenha completado a história. Ou talvez todos estes fragmentos sejam reais e aconteceram mesmo. A única lembrança que tenho certeza absoluta de que é autêntica, foi a felicidade que senti naquele dia. Isto sim foi real e quiça por este motivo eu não tenha esquecido deste dia, assim como esqueci de tantos outros.
Um dia que, analisado friamente, não teve nada demais. Um dia comum para qualquer outra criança. Com brincadeiras, doces, tombos, machucados... Acompanhada do pai, do irmão e de novos amigos, feitos ali mesmo na hora, durante as brincadeiras em meio à multidão. Mas que ao ser recordado e vivido novamente através de fotos ou da própria memória, faz renascer a esperança dentro de mim. Desperta a alegria e atiça minha mente. Me faz sonhar com o futuro que outrora eu imaginava. E hoje já vivo o futuro de antigamente. Não no fantástico mundo da imaginação, mas aqui mesmo, na fria e cruel realidade. Que sob a luz de dias como este, se mostra afável e aconchegante. Perde sua máscara temível e horrenda, e se mostra tão bela quanto o sorriso de uma criança. Uma criança que nada teme, que é amada e bem tratada. Ah! Quem dera todos os dias fôssemos crianças...

Um comentário:

marcas disse...

adorei...tb sou gaúcha...